News nº 11 | Janeiro/Fevereiro 2010
Investigação e Formação Avançada
Curso de Mestrado de Doenças Infecciosas Emergentes (2003-2009)

UMA HISTÓRIA DE SUCESSO NA FORMAÇÃO AVANÇADA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA 

Francisco Antunes
ip231874@sapo.pt 

Emília Valadas

evaladas@fm.ul.pt 

António Santos 

antoniosantos@fm.ul.pt 


Alunos do 1º Curso de Mestrado, ano de 2003 (de cima para baixo e da esquerda para a direita): 1ª fila – Dr. José Diogo, Dr. Nuno Magalhães, Dr. Rui Soares, Prof. Francisco Antunes e Dr. António Santos; 2ª fila – Dr. Carlos Moniz, Drª Sónia Pimentel, Drª Helena Peres, Drª Isabel Aldir, Drª Helena Cortes Martins, Drª Ana Raimundo, Dr. Nuno Germano e Drª Inês Bártolo; 3ª fila – Profª Emília Valadas e Enfª Teresa Amores

1. INTRODUÇÃO
Em 1962, Sir Macfarlane Burnet declarou que a batalha contra as doenças infecciosas tinha sido ganha (1), reflectindo o pensamento de alguns peritos em doenças infecciosas da altura. O optimismo pós-guerra, com o aparecimento de antibióticos, de vacinas e de insecticidas, tinha levado a acreditar que as doenças infecciosas no Homem estavam sob controlo e que esta tendência iria continuar. Tal conduziu ao início de um período de complacência para com as doenças infecciosas. As prioridades da Saúde Pública passaram a ser direccionadas para as doenças crónicas, para as quais não se adivinhava uma causa. As infra-estructuras de Saúde Pública foram-se deteriorando e, os últimos anos, têm sido testemunha de um aumento de doenças infecciosas conhecidas, bem como de novas doenças infecciosas ou previamente não reconhecidas. Em 1997, cerca de um terço das mortes no Mundo foram causadas por doenças infecciosas (2). 

Nas últimas três décadas, surgiram cerca de trinta doenças, previamente desconhecidas, e para as quais não há tratamento eficaz. As doenças infecciosas não reconhecem fronteiras, pelo que uma doença emergente numa parte do Mundo tem que ser equacionada como potencialmente importante para qualquer outra região ou País. A infecção por VIH só foi reconhecida no início dos anos 80. No final de 2007, e segundo estimativa da Joint United Nations Programs on HIV/AIDS (UNAIDS), mais de 33 milhões de pessoas tinham sido infectadas por VIH e, só no ano de 2007, cerca de três milhões de adultos foram atingidos por esta pandemia. 

Em 1918, a nível Mundial, a pandemia por vírus influenza originou a morte de 25 milhões de pessoas. A actual pandemia provocada pelo vírus da gripe (H1N1) 2009, a primeira pandemia gripal do século XXI, está na sua segunda vaga e, ainda, não se sabe qual será o seu impacto na morbilidade e na mortalidade e a sua influência na economia mundial. 

A infecção por vírus Ebola emergiu no Sudão e no Zaire, em 1976. Até agora, estas epidemias têm sido limitadas a um número restrito de áreas geográficas. 

A variante da doença de Creutzfeldt-Jackob foi reconhecida, pela primeira vez, em 1996, não se sabendo, ainda, a real dimensão do problema. 

O aparecimento de novas doenças infecciosas emergentes parece ser inevitável, atendendo ao equilíbrio dinâmico entre os microrganismos e o Homem, às alterações recentes do comportamento humano e do meio ambiente. 

O crescimento da população Mundial (cerca de 10 biliões no ano 2050), o aquecimento global (com o aumento da população de vectores e de hospedeiros de doenças infecciosas), as alterações nas práticas agrícolas e a consequente desflorestação, as alterações do estilo de vida, os avanços tecnológicos e as alterações do comportamento sexual são factores determinantes para a emergência e re-emergência das doenças infecciosas. 

A possibilidade de alterações genéticas, nos próprios agentes etiológicos, pode ser um importante factor na emergência de algumas doenças, sendo clássico o exemplo do vírus influenza. A resistência bacteriana aos fármacos, incluindo a preocupante resistência de Mycobacterium tuberculosis, são exemplos de como a resistência aos antibióticos tem afectado a emergência de algumas doenças (2-7). 

A complacência, resultante da percepção geral de que as doenças infecciosas não eram mais um problema importante de Saúde Pública resultou numa diminuição do investimento nas doenças infecciosas. As infra-estruturas de Saúde Pública começaram a deteriorar-se e, nos anos 80, encontravam-se num estado crítico na maioria dos países do Mundo (8). 

O conhecimento existente acerca de algumas doenças infecciosas é suficiente para que possam ser desenvolvidos programas de prevenção e de controlo eficazes. Provavelmente, o mais importante será reverter o crescimento demográfico dos últimos 50 anos. No entanto, o impacto das doenças infecciosas emergentes poderá ser menor se as estruturas de Saúde Pública forem reactivadas, de forma a poderem lidar eficazmente com essas doenças. Por outro lado, há que voltar a pensar em termos de prevenção das doenças, através de financiamento adequado e da vontade política para o desenvolvimento e implementação de estratégias de prevenção.

2. CONSELHO DE MESTRADO, PLANO DE ESTUDOS E CORPO DOCENTE  
O Conselho de Mestrado, coordenado pelo Prof. Doutor Francisco Antunes, é constituído pelo Prof. Doutor Rui Victorino, Doutora Teresa Paixão, Profª Doutora Maria do Carmo Fonseca, Prof. Doutor Melo Cristino, Profª Doutora Olga Matos, Profª Doutora Ana Espada de Sousa e Profª Doutora Emília Valadas. O Assessor do Mestrado em Doenças Infecciosas Emergentes é o Mestre António Santos, do Gabinete de Mestrados e Doutoramentos, do Instituto de Formação Avançada da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. 

O plano de estudos do Curso de Mestrado em Doenças Infecciosas Emergentes é composto pelos seguintes módulos: 




Participam no ensino deste Curso de Mestrado, aproximadamente, 70 docentes, dos quais mais de metade, cerca de 40 (57%) são estranhos à Universidade de Lisboa e cerca de 15 (21%) são estrangeiros, não só de outros países europeus, como dos Estados Unidos da América e de África.

3. CARACTERIZAÇÃO DOS MESTRANDOS E RESULTADOS OBTIDOS  
O Curso de Mestrado em Doenças Infecciosas Emergentes foi criado em 19 de Abril de 2002, tendo iniciado a sua 1ª edição em 2003, com 13 alunos seleccionados. Nesta 1ª edição todos os alunos foram aprovados na componente curricular e, todos eles, excepto um, defenderam a sua Tese de Mestrado (). No corrente ano lectivo iniciou-se a 7ª edição (1ª edição do 2º Ciclo de estudos, depois de adequado a Bolonha), com 15 alunos, dos quais 4 são licenciados em Medicina, sendo um deles médico em Moçambique (até ao momento 3 alunos originários dos PALOPs inscreveram-se no Mestrado). Dos 103 alunos que se inscreveram nas 7 edições do Curso de Mestrado em Doenças Infecciosas Emergentes (na figura 1 estão representadas as diferentes áreas de licenciatura), 42% estavam ligados, directamente, à área da saúde, isto é, médicos e enfermeiros, sendo, destes, 72% médicos. Na actual edição, dos 15 alunos, 4 são médicos e 2 deles enfermeiros, o que representa 40% dos inscritos. 

Dos 88 alunos que frequentaram as seis primeiras edições do Curso de Mestrado em Doenças Infecciosas Emergentes, 96% obtiveram aprovação na componente curricular, sendo de 15 valores a média das classificações obtidas. Nas três primeiras edições (2003/2004/2005), dadas como concluídas, dos 44 alunos inscritos, 59% defenderam a Tese de Mestrado, todos eles com sucesso. Na figura 2 está representada a distribuição do número de alunos inscritos e do número de alunos aprovados, pelas três primeiras edições. Apesar dos resultados finais obtidos na 3ª edição, com uma taxa de sucesso de 31%, a qual ficou muito aquém dos 98% e 67%, respectivamente, da 1ª e 2ª edição, a taxa de sucesso global, nas três primeiras edições do Mestrado, foi de 61%. 


Figura 1. Distribuição dos 103 alunos inscritos no Curso de Mestrado em Doenças Infecciosas Emergentes, pelas áreas de licenciatura


Figura 2. Distribuição do número de alunos inscritos e do número de alunos que obtiveram aprovação na prova de defesa da tese de Mestrado, pelas três primeiras edições (2003, 2004 e 2005) do Curso de Mestrado em Doenças Infecciosas Emergentes

4. CRIAÇÃO DO PROGRAMA DE DOUTORAMENTO EM DOENÇAS INFECCIOSAS EMERGENTES 
Por Despacho nº 12994/2009, de 2 de Junho, foi aprovado pelo Despacho Reitoral nº R-55-2008(8), de 19 de Dezembro, a criação do programa de doutoramento em Doenças Infecciosas Emergentes. A Universidade de Lisboa passará a conferir, pelo programa de doutoramento em Doenças Infecciosas Emergentes, o grau de doutor:
1. No ramo de conhecimento da Medicina, na especialidade de Doenças Infecciosas e Parasitárias
2. No ramo de conhecimento de Ciências e Tecnologias da Saúde, na especialidade de Epidemiologia e Microbiologia
3. No ramo de conhecimento de Ciências Biomédicas, na especialidade de Epidemiologia
A criação do Programa de Doutoramento em Doenças Infecciosas Emergentes reflecte, de um modo natural, o sucesso do Mestrado, do qual emergiu. 




5. BIBLIOGRAFIA
1. Burnet, Sir Macfarlane. Natural History of Infectious Diseases. 3rd Edition. Cambridge University Press, New York, N.Y., 1962:1-377.
2. WHO. The World Report. Life in the 21st century: A vision for all. World Health Organization, Genève, Switzerland, 1998: 1-241.
3. World Resources. The Urban Environment. Oxford University Press, New York, N-Y., 1996: 1-365.
4. Murphy FA. Emerging zoonoses. Emerg Infect Dis 1998; 4: 429-35.
5. Reiter P, Sprenger D. The used tire trade: A mechanism for the worldwide dispersal of container breeding mosquitoes. J Am Mosqu Cont Associ 1987, 3:15-26.
6. Osterholm MT. Emerging infectious diseases. A real public health crisis? Post Graduate Med 1996, 5:15-26.
7. Gubler DJ. Resurgent vector-borne diseases as a global health problem. Emerg Infect Dis 1998; 4:442-50.
8. Lederberg J, Shope RE, Oaks SC (eds.) Emerging Infections. In. Microbial Threats to Health in the United States. (1992) National Academy Press, Washington, D.C., 1992:1-298.

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