News nº 14 | Maio de 2010
Espaço Aberto
100 anos de Medicina: uma perspectiva histórica [1910-2010] Parte II

Manuel Valente Alves
Director do Museu de Medicina da FMUL
m.valentealves@sapo.pt  


A cirurgia e os transplantes 
Em 1947, João Cid dos Santos inventou a técnica cirúrgica de endarterectomia ao desobstruir, pela primeira vez no mundo, uma artéria femoral superficial ocluída, técnica que ainda hoje é utilizada. 

Figura 1Figura 2
Fig. 1 - Desenho de Olga Bragança descrevendo a técnica da endarterectomia. Col.
Museu de Medicina FMUL.
Fig. 2 - Instrumentos de endarterectomia utilizados por João Cid dos Santos:
apaga-velas e descolador lateral. Col. Luís Teixeira Diniz. Foto Nina Szielasko.


Em 1967, foi realizado o primeiro transplante de coração com sucesso pelo cirurgião cardíaco sul-africano Christiaan Barnard.
Nesse mesmo ano, Jean Baptiste Dausset, médico francês, e seus colaboradores, descobriram uma solução para a rejeição dos transplantes de órgãos e tecidos, depois de, em 1958, terem demonstrado que determinadas reacções observadas em transfusões de sangue do mesmo grupo de Landsteiner eram devidas aos leucócitos e não aos glóbulos vermelhos. A equipa de Dausset investigou os tipos antigénicos dos leucócitos na população e concluiu que os mesmos faziam parte de um sistema que controla a rejeição dos transplantes. George Snell, que realizava pesquisas semelhantes nos Estados Unidos, propôs para este sistema a denominação de «human-lymphocyte-antigen» (HLA), parte de um complexo maior de histocompatibilidade (MHC). Em 1967, em colaboração com Felix Rapapport, Dausset chegou à conclusão de que os transplantes entre membros da mesma família com idêntico HLA tinham maior probabilidade de sucesso do que quando os tipos antigénicos eram diferentes. Dausset foi, ainda, o primeiro cientista a associar o HLA com as doenças, o que levou outros pesquisadores a explorar esta possibilidade, comprovando a associação do padrão antigénico dos linfócitos com o maior risco de adquirir determinadas doenças como a artrite reumatóide, doenças autoimunes e a diabetes. Jean Baptiste Dausset, Baruj Benacerraf e George Snell receberam conjuntamente o Prémio Nobel em 1980. 

Em 1987, o cirurgião francês Philipe Mouret, iniciou a «cirurgia de acesso mínimo, laparoscópica ou minimamente invasiva», a primeira colecistectomia videolaparoscópica, em que a vesícula passou a ser retirada da cavidade abdominal por meio de pequenas incisões divergentes no abdómen. 

De 1850 a 1950, a cirurgia viveu o seu «século de ouro», devido ao aparecimento, no século XIX, da anestesia, da assepsia e da antissepsia e, no século XX, dos antibióticos.

A partir da segunda metade do século XX, também houve um enorme progresso nos transplantes de órgãos, na oncologia, no trauma, no tratamento das doenças sociais (como a obesidade e as doenças do envelhecimento) e noutras patologias, devido ao rigor dos suportes tecnológicos e terapêuticos.


Novas doenças e epidemias 

Em 1951, o médico português Corino de Andrade (1906-2005) descobriu a Polineuropatia Amiloidótica Familiar ou Doença de Corino de Andrade, vulgarmente conhecida por «Doença dos Pezinhos». 

Em finais dos anos 1970 e início dos anos 1980, irão surgir doenças atribuídas a microrganismos até então desconhecidos – a Legionnella Pneumophila («doença dos legionários»), os vírus hemorrágicos africanos (Ébola, Febre de Lassa) e, sobretudo, o HIV. A síndroma de imunodeficiência adquirida (SIDA) foi identificada pela primeira vez em 1981. O primeiro teste para o HIV foi aprovado em 1985. Nos anos seguintes, começaram a ser investigados fármacos, não apenas para combater o vírus, mas também para prevenir as infecções que resultam da danificação do sistema imunitário pelo HIV. De acordo com o 2006 Report on the global AIDS epidemic da UNAIDS [United Nations Programme on AIDS], «em apenas 25 anos o HIV passou de alguns “pontos quentes” dispersos no globo para virtualmente todo e qualquer país do mundo, infectando 65 milhões de pessoas e matando 25 milhões.»


Novas tecnologias da imagem 

Em 1933, Ernst Ruska, físico alemão, inventou o microscópio electrónico. 

Figura 3























Fig. 3 - Primeiro microscópio electrónico em Portugal (década de 1950), oferecido pela Fundação Calouste Gulbenkian. RCA da série EMU 3. Permite observações directas com ampliações de 1.400 a 30.000 x e ampliaqções fotográficas de 200.000 x. Col. Museu de Medicina FMUL. Foto Nina Szielasko 


Em 1945, Rosalyn Yalow, cientista, e Salomon Berson, médico, ambos norte-americanos iniciam um amplo projecto de estudos sobre o emprego de radioisótopos em medicina. Yalow cria um método extremamente sensível, que denominou de radioimunoensaio (RIA), que foi substituído posteriormente pelo imunoenzimático (ELISA), baseado nos mesmos princípios. Rosalyn Yalow recebeu, por essa invenção, o Prémio Nobel em 1977. 

Em 1946, os físicos Félix Bloch, suíço, e Edward Mills Purcell, norte-americano, descobrem a ressonância magnética nuclear, uma das mais poderosas técnicas espectroscópicas inventadas. Durante décadas, a ressonância magnética foi usada principalmente para estudar estruturas químicas. A visualização do corpo através de imagens por RM foi feita pela primeira vez na década de 1970, por Peter Mansfield, físico britânico, e Paul Lauterbur, ambos laureados com o Prémio Nobel da Fisiologia e da Medicina em 2003. 

Em 1957, é criado o endoscópio de fibras ópticas. A ideia da sua construção deve-se a Basil Hirschowitz, médico sul-africano que, durante um estágio em Ann Arbor, nos Estados Unidos, se associou ao físico Larrey Curtiss, passando a trabalhar juntos, de 1954 a 1957, na construção do aparelho. 

A tomografia computorizada foi concebida, em 1967, por Godfrey Newbold Hounsfield, engenheiro electrotécnico inglês. Allan McLeod Cormack, biólogo da África do Sul, trabalhando separadamente (não conhecia sequer a existência de Hounsfield), inventou um processo similar, pelo que o Prémio Nobel será atribuído a ambos, em 1979. 

Em 1981, os físicos Gerd Binnig, alemão, e Heinrich Rohrer, suíço, inventam o microscópio de varredura por efeito túnel [scanning tunneling microscope] (STM), que permite visualizar átomos individuais. Em 1986, foram laureados com o Prémio Nobel, juntamente com Ernst Ruska, inventor do microscópio electrónico. 


A pílula, o bebé-proveta e a ovelha Dolly


Em 1960 é lançada nos EUA a primeira pílula contraceptiva oral combinada, Enovid-10, inventada pelos norte-americanos Gregory Goodwin Pincus, biólogo e investigador, e John Rock, médico ginecologista. Em Portugal, a primeira pílula comercializada surgiu em 1962. 

A 25 de Julho de 1978 nasceu Louise Brown, em Bristol, na Inglaterra, o primeiro «bebé-proveta» do mundo, resultante de uma inseminação artificial ou fertilização in vitro, assistido por Robert Edward e Patrick Steptoe, na Bourn Hall Clinic, em Cambridge. 

A ovelha Dolly, o primeiro mamífero no mundo a ser clonado com sucesso a partir de uma célula adulta, nasceu em 1997. Viveu seis anos. Os créditos desta experiência são atribuídos a Ian Wilmut e Keith Campbell, ambos embriologistas ingleses, investigadores do Instituto Roslin, na Escócia. 


A cibernética e a Internet
 

Em 1936, Alan Turing, matemático inglês, publicou o artigo «On computable numbers, with an application to the Entscheidungsproblem», apresentado quatro anos antes na London Mathematical Society, onde descreve uma máquina abstracta muito simples que seria capaz de efectuar, de modo automático, um cálculo, desde que a sua configuração fosse definida por uma tabela de instruções – a «máquina de Turing», que prefigura a estrutura lógica dos modernos computadores digitais. Turing trabalhou não só no desenvolvimento dos primeiros computadores electrónicos, como na génese das teorias da inteligência artificial e em aplicações da matemática às formas biológicas.

Em 1946, John von Neuman, Norbert Wiener, Warren McCulloch e outros cientistas, reúnem-se num hotel em Nova Iorque com a convicção de que a mente opera como uma máquina e que é possível, através da física, integrar o significado da natureza. O nome de código utilizado para designar este movimento foi «cybernetics».

Em 1989, o cientista inglês Tim Berners-Lee, investigador do Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire (CERN) [Centro Europeu de Pesquisas Nucleares] na Suíça, muda definitivamente a face da Internet, criando a world wide web, um sistema que inicialmente interligava sistemas de pesquisas científicas e académicas de várias universidades. Em 1991, Berners-Lee publicou um novo projecto para a World Wide Web, dois anos depois de começar a criar o HTML, o HTTP e as primeiras páginas web no CERN, na Suíça. O CERN não tinha ideia das proporções que a World Wide Web iria tomar. Em 1993, a NCSA (National Center for Supercomputing Applications) lança o primeiro browser para a Web, o navegador X Windows Mosaic 1.0. O lançamento deste browser foi o responsável pela popularização da Internet que, desta maneira, se libertou do meio académico. Em 1996, a palavra Internet já era de uso comum, principalmente nos países desenvolvidos. A sua referência são as iniciais www. Esta confusão entre a nomenclatura Internet e Web é frequente até hoje, mas é importante ressaltar que a Web é apenas uma parte da Internet. Até à descoberta de Berners-Lee, a Internet constituía uma rede fechada com uma interface bastante diferente da que conhecemos hoje. Com efeito, a rede mundial de computadores surge na década de 1960, nos períodos áureos da Guerra Fria, com a ARPANET, criada pela ARPA [Advanced Research Projects Agency] do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, um sistema destinado a trocar e compartilhar informações de forma não centralizada para evitar o seu desaparecimento no caso de um ataque a um centro de documentação. O protótipo da Arpanet foi criado em 1969 e a primeira demonstração pública ocorreu em 1972.

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