News nº 18 | Dezembro 2010
Espaço Aberto
Sacos e Mochilas: “pesos” de hoje e “fardos” de amanhã (PARTE II)
Prof. Doutor João Frada
Médico e Professor Universitário Apos. da Faculdade de Medicina de Lisboa
joaojcfrada@gmail.com  



A confirmar os factos, e desde há vários anos, a medicina portuguesa tem vindo a diagnosticar com demasiada frequência patologias desta natureza nas «camadas estudantis» entre o 5º e o 12º anos, incontestavelmente os mais sacrificados pelas exigências do actual sistema pedagógico, pretensamente inteligente e de vanguarda, também pautado por normas sanitárias que, à partida, deveriam contribuir para prevenir e corrigir entre a população estudantil problemas e distúrbios de carácter infeccioso, higiénico, alimentar e biomecânico, como é o caso. Estudos de saúde realizados entre a população escolar portuguesa demonstraram já que 25% a 40% das crianças em idade escolar (Matos, Simões, Carvalhosa, Reis & Canha, 2000) revelam dores nas costas, provocadas pelo transporte de mochilas demasiado pesadas, grandes demais em relação à altura do tronco, mal ajustadas ao dorso ou penduradas simplesmente sobre um dos ombros.(1) 

Meditemos, atentamente, sobre o assunto e não subvalorizemos o mal-estar ou as «dores nas costas» relatados pelos nossos filhos. Tais queixas podem ser o primeiro indício dessa sobrecarga mio-esquelética.

O peso da mochila não mata mas mói. Mói, literalmente, as articulações e a coluna vertebral é, com frequência, a mais atingida/lesada neste processo. 

Talvez seja chegada a altura das várias entidades oficiais responsáveis pelo ensino em Portugal deixarem de se preocupar, apenas, com métodos e resultados de avaliação e começarem a reflectir também sobre este problema de saúde pública nacional escolar. Temos a consciência que o pragmatismo político-partidário domina e determina, fortemente, as decisões daqueles que nos governam em cada conjuntura. Nessa medida, embora a solução radical do problema em causa (patologia mio-esquelética por excesso de peso do saco ou mochila) possa implicar um esforço orçamental suplementar considerável, é conveniente ter em conta que, também em política, o «nada se perde, tudo se transforma» acontece algumas vezes, para o melhor e para o pior. 

Senhores governantes, os jovens de agora serão os homens de amanhã e tudo quanto não fizerdes por eles hoje, ser-vos-á, inexoravelmente, de uma forma ou de outra, cobrado no futuro. 

«A memória do povo é curta», diz-se, mas quando se trata da «carteira» ou da saúde, as lembranças não se apagam facilmente. E a desilusão e o descontentamento são o pior adubo para qualquer sementeira eleitoral. 

À imagem do que já se fez e faz em outros países confrontados com o mesmo problema, o governo português poderia criar e aplicar estratégias com vista à sua prevenção ou minimização, as quais poderiam assentar, simplesmente, em medidas deste tipo: 

- Equipar as escolas com cacifos em número adequado, destinados à guarda de objectos, livros e materiais escolares.
- Dispor de mesas de trabalho, carteiras e cadeiras suficientemente ajustáveis a todas as estaturas, o mais anatomicamente adequadas, de modo a que os jovens não tenham que se curvar em excesso sobre enquanto desenham, manuseiam objectos, escrevem ou lêem. 
- Organizar e implementar actividades físicas obrigatórias e sempre orientadas com racionalidade pelos respectivos professores de educação física, apoiados sempre por profissionais de saúde que, em conjunto, deverão proceder a uma avaliação de diagnóstico de todos os alunos, em termos saúde geral mas, sobretudo, de biotipologia esquelética e muscular. 

Esta avaliação permitirá não apenas aferir o perfil de cada aluno e suas eventuais limitações em relação ao esforço (de natureza cardíaca, respiratória, renal, etc.), como facilitará a identificação daqueles que, por apresentarem desvios posturais e deformações esqueléticas viciosas, com ou sem queixas associadas, terão que ser imediatamente orientados para a consulta médica adequada (fisiatria e/ou ortopedia). A partir deste processo selectivo, os alunos deverão ser consciencializados da sua condição física e enquadrados, com restrições ou sem restrições, em programas de exercício físico racionais, suficientemente correctivos e fortalecedores das articulações e da musculatura torácica. O êxito desta medida escolar, assente na prática de actividade física regular, que consideramos absolutamente fundamental para a correcção e prevenção destes vícios posturais, resulta quer de um ganho de (maior) resistência e equilíbrio muscular, quer da redução imediata do stress e da tensão exercida sobre os músculos e articulações do tronco, promovidos pelo alongamento e pela descontracção gerados pelos exercícios de ginástica. 

As mochilas, em tecido impermeável e suficientemente herméticas à água da chuva, devem ajustar-se perfeitamente às costas da criança ou do jovem, não excedendo demasiado a sua altura de tronco, e têm que ser rígidas e dispor de um encosto almofadado/acolchoado. As alças devem ser também almofadadas e suficientemente largas e ajustadas aos ombros, para haver uma distribuição equilibrada do peso da mochila sobre as costas e esta deverá possuir um cinto regulável na largura, de modo a ficar o mais solidária possível com as costas, evitando movimentos e balanços com repercussões negativas sobre a coluna. A mochila jamais deverá ser transportada sobre a anca e pendente apenas de um dos ombros. 

__________________
Bibliografia: 

(1) NORONHA, T. e VITAL, E., Fisioterapia na Saúde Escolar – dos modelos às práticas
(http://www.afisioterapia.com/artigos/down.asp?t=pdf&id=51 )
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